Homenagem a Ruben A.

para Quinteto Pierrot e Narrador

Reproduzir vídeo

Ano de Composição

2020

Instrumentação Detalhada

  • Flauta
  • Clarinete
  • Violino
  • Violoncelo
  • Piano
  • Narrador

Duração Aproximada

23 min.

Texto de

Ruben A.

Prémios

Prémio Musa 2020

Apresentações

6 de Novembro 2020, Festival Música Viva, São Luíz Teatro Municipal, Lisboa, Ensemble mpmp dirigidos pelo maestro Jan Wierzba (estreia).

Sobre

Através dos séculos, Deus foi-se sublimando, emancipou-se, obteve a maioridade. Primeiro foi na terra, à medida que se ia descobrindo mais terra, que o homem ia avançando, os deuses iam encolhendo, escondidos em outras paragens. A certa altura acabaram-se os deuses na terra. Foi um ponto final profundamente religioso que matou as crendices, os abrenúncios, as mezinhas para curar, os santeiros. Depois vieram os deuses do mar. Esses habitaram mais tempo. Eram mistério que aparecia e desaparecia à tona da água. Mergulhavam, respiravam ao de cimo, casavam com a terra, lambiam as costas dos continentes, amedrontavam. Enfureciam as almas, punham em estado de sítio as descobertas — eram deuses para portugueses e gregos. Deuses de viagem, que acompanhavam de perto os barcos num pairar misterioso de gaivotas. Aos poucos foram mirrando, perdendo ares olímpicos, fora da lenda — então os deuses da terra e do mar recolheram ao céu — um céu sideral, de horizonte fecundo, onde luzes claras pareciam ver-se formas semelhantes às de restos de deuses que há séculos haviam abandonado as florestas e as grutas.
Preocupo-me com os deuses. O meu tridente não enxerga divindades. Mesmo no céu, no último reduto que julgava possível eles já o abandonaram. Emigrados da terra, sem mar e sem espaço os deuses ficam mais limpos, mais puros, apeados da parafernália dos domingos e feriados.

Ruben A.