Um Adeus aos Deuses (2020), de Miguel Resende Bastos, deixou-nos duas certezas: a da competência técnica do compositor, cuja escrita é segura e pertinente, e a do carácter algo informe da obra, que consiste num comentário sonoro a um texto, confiado a uma recitante, retirado do livro do mesmo título publicado por Ruben A. em 1963, que glosa uma viagem à Grécia.

Festival Música Viva

Triplo concerto

Lisboa, Teatro Municipal de São Luiz 6 de Novembro, 19h

O concerto inaugural do 26.º Festival Música Viva (que continua no O’culto da Ajuda até dia 14 deste mês), em Lisboa, teve lugar, excepcionalmente, no Teatro de São Luiz. Isso permitiu albergar, em sequência, três agrupamentos de câmara que se têm vindo a dedicar à revelação de novas partituras: o Ensemble Mpmp, dirigido por Jan Wierzba; o Sond’ar-te Electric Ensemble, sob a batuta de Pedro Carneiro; e o Grupo de Música Contemporânea de Lisboa, conduzido por João Paulo Santos.

O título do programa, Infnitas Cores do Som — Cenários da Música Portuguesa Hoje corresponde bem ao conteúdo: ao todo, foram interpretadas dez obras de compositores portugueses, compostas num arco temporal de quase meio século. A mais antiga, de Constança Capdeville (1937-1992), foi Momento I (1974), um marco fundamental de afirmação de vias alternativas (instrumentais, corporais e tecnológicas) para o pensamento do som. Seguiu-se, na cronologia, Leves Véus Velam (1981), de Jorge Peixinho (1940-1995), baseado no poema de Fernando Pessoa Leves véus velam, nuvens vãs, a Lua. Aqui, com reminiscências do Pierrot Lunaire, a imaginação onírica perfaz-se a partir de campos harmónicos e de seus desvios, e nem mesmo a tortuosidade da escrita vocal impede uma impressão geral de subtileza variada e macia. Com Breve Será Dia (1994), de Clotilde Rosa (1930-2017), a subtileza continua, mas num plano menos abstracto: acompanha-se o despertar a natureza com passos incertos e rastejantes, ou suaves lampejos, em direcção à florescência final.

Estas três obras, de três diferentes autores, representaram a geração dos fundadores da nova música exploratória, em busca de um ouvinte aberto a novos sentires. Mas este concerto, triplo nos protagonistas, foi também triplo nas gerações presentes. Da geração seguinte, que se afirmou a partir da década de 90, pudemos escutar três obras escritas em 2019 de Miguel Azguime (1960-), Carlos Caires (1968-) e João Madureira (1971-). (…)

Finalmente, puderam ouvir-se quatro obras de outros tantos autores da geração mais jovem, desta vez não apenas da região de Lisboa, mas também da região do Porto e Braga: João Godinho (1976-), Diogo Novo Carvalho (1986-) e Carlos Brito Dias (1991-) — que, apesar das diferenças de idade, emergiram como autores por volta de 2005 — e ainda Miguel Resende Bastos (1995-), que se lhes juntou mais recentemente.

(…)

Finalmente, a estreia absoluta de Um Adeus aos Deuses (2020), de Miguel Resende Bastos, deixou-nos duas certezas: a da competência técnica do compositor, cuja escrita é segura e pertinente, e a do carácter algo informe da obra, que consiste num comentário sonoro a um texto, confiado a uma recitante, retirado do livro do mesmo título publicado por Ruben A. em 1963, que glosa uma viagem à Grécia.

Last but not least, resta-me realçar a qualidade das interpretações musicais que o público teve oportunidade de presenciar neste triplo concerto, e chamar a atenção para os restantes eventos programados no festival, no qual foi reservado aos compositores portugueses de tradição académica, tão pouco acarinhados pelos media, um destaque invulgar.

Manuel Pedro Ferreira

in Público